quinta-feira, 26 de julho de 2012

[as últimas palavras]

Seu corpo estava fraco. Seu pulmão já não funciona tão bem e respirar está começando a ficar difícil. Seu peito sobe, devagar, ritmado, para cima e para baixo. Sua respiração está mais forçada. Seu corpo, que antes tinha gordura, hoje é apenas pele e osso.

Dói. 

A cada tentativa de bombear o ar para dentro dos pulmões dói. Se não é por esse aparelho, talvez você já tivesse definhado, mas lá está ele, fazendo aquele barulho insuportável. Ele te mantém viva. 

- Oi. – pergunta ele, ao aproximar-se de você. Seus olhos se abrem de vagar, estranha a luminosidade presente nesse quarto de hospital. 

- Oi. – sua voz é apenas um sussurro, suficiente para que ele ouça. 

- Como se sente hoje? 

- Acho que é o último dia. – Você diz. 

- Não diga isso. 

- Tenho certeza disso. – Tosse – Sinto meu corpo definhando a cada momento, a cada segundo. Até já pensei nas minhas últimas palavras. – Pausa 

Ele te olha estranho, assustado talvez.

– Não me olhe assim, todos sabiam que hora ou outra isso aconteceria. – Tosse. – Eu sei que chegou a minha hora. Ele respira fundo e você nota uma linha molhada fina deslizando pelo rosto pálido dele.

Dói. 

- Não chore, por favor.

- Não quero te perder agora. – Ele diz com a voz embargada. 

Você vira-se para olhar para ele, todo o seu corpo se contrai em uma dor e você quase grita... Quase, ao invés disso, respira dolorosamente fundo e fala: - Você deveria estar pronto para isso. Deveria! – Agora você sente lágrimas molhando seu rosto. 

Você, então, sente uma dor e todo o seu corpo se encolhe. 

Dói. 

Dói mais que das outras vezes, você sente seu coração desacelerar, você sente sua respiração mais dificultosa, você sente sua vida se esvaindo. Você sente a respiração dele próximo, sabe que ele está ali. 

- Quer saber quais são as minhas últimas palavras? – murmura. 

- Sim. – diz ele chorando abertamente. 

- Obrigada por tudo. – Você sorri pela última vez antes que aquele que sua respiração se torne mais difícil, antes que o oxigênio não chegue ao seu cérebro, antes que seu peito para de se movimentar para cima e para baixo, antes que seu coração pare de bater, antes que seus olhos se fechem pela última vez.

4 comentários:

  1. Ah, como eu disse, super legal.

    O final foi muito bonito.

    Mas sabe me deu uma saudade do meu cachorro. Sempre desejei algo assim como um final para nossa história.

    Obrigada por me fazer sorrir, mesmo que saudosamente, por causa desse conto.

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  2. Como seria mais fácil se tivessemos a chance do adeus em todas as nossas despedidas...

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  3. Como eu dizia - antes de ser zoada pelo Mozilla - assim que eu li fui imediatamente invadida por um milhão de pensamentos.
    Sou da opinião que um bom final não é necessariamente um final feliz - aliás tenho uma ou duas histórias onde meus personagens principais morrem no final.
    Como sempre, sua escrita é gentil e suave... Perfeita!

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  4. Muito bom Caroline!
    Aqui é o Thiago(dreadlocks/ viciado em Dostoiévski/Rimbaud) que vai na Escariz de vez em quando.Você me passou um papel com o endereço do seu outro blog(nossocdl), acabei encontrando este.
    Ótimo conto!
    Em breve vou ler "Senhora" por sua Influência. hahahaha

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