segunda-feira, 24 de setembro de 2012

[seu nome é maria]

Era uma vez uma menina ou uma mulher, depende da forma como decide enxergá-la. E antes que você pergunte isso não é um conto de fadas, na verdade, está longe de ser. É apenas a história dela ou daquela que trabalha oito horas diárias, de domingo a domingo e ainda tem que arrumar tempo para estudar, ler e escrever banalidades. 

Seus sonhos? Bom, ela não tem sonhos. Na verdade, cansou de esperar por eles, então resolveu seguir em frente. Dizia para si mesma que sonho era coisa de gente que podia dar-se ao luxo de sonhar, ela não podia fazer isso. 

Ela era preta, pobre, assalariada, estudante, filha, menina, brasileira que teve que virar dona de casa cedo demais, cuidando do sustento dos seis irmãos; Não era dotada de beleza, sua magreza acentuada era mais preocupante do que sexy, seu cabelo era duro, tão duro que para o pente entrar era difícil. 

Certa vez ela estava parada na calçada, quando um carro parou em sua frente; abaixa-se os vidros, um guri aparece.  

"Seu cabelo é tão bonito quanto um Bombril” 

Foi o que ele disse, ela baixou os olhos – vergonha, raiva, pena, piedade, vergonha, vergonha, lágrimas. – e nada disse, mesmo assim, continuou a andar, não podia parar, não naquela hora, não naquele momento. 

Tinha amigos, poucos, mas tinha. 

Quase nenhum, mas tinha; 

Nenhum. 

Na verdade, não tinha. 

Vivia a chorar pelos cantos da casa, da cidade, do quarto, fazendo um barulho imenso para ser notada, mas quem se importava?! Aquele vizinho do lado se importava! Claro, que importava! Ela fazia barulho demais quando gritava.  

“Cala a boca” Gritava ele, enquanto a dor a sufocava. 

Uma vez entrou num barbeiro, desses de esquina.  

“Por favor, corte” disse autoritária.  

“Tem certeza?” perguntou o homem.  

“Faça” ordenou. 

Quando se olhou no espelho, não reconheceu a faceta ali sentada. Medo, vergonha, aceitação ou a falta dela. 

E se as pessoas não gostassem? As pessoas sabem que você existe? 

E se o mundo não gostar? O mundo nunca lhe deu importância. 

Seus irmãos iriam notar! É algum tipo de piada? 

Seus amigos! Quais? 

Ora, se o mundo nunca se importou com ela, porque se importaria agora?! 

Naquele dia ela correu, correu, correu. Trancou-se no quarto na doce companhia duma Tramontina, amolada. Ainda teve tempo de pensar, quando sentiu a dor, mas essa era diferente. Era carnal e fazia sua pele sangrar. 

Ela sente a dor. 

Ela grita, mas ninguém a ouve. 

Ela chora, mas ninguém a vê. 

Ela vê a vida se esvaindo do seu corpo, mas ninguém a ajuda. 

Ela só queria que alguém a abraçasse e mesmo que estivesse mentindo dissesse que tudo iria ficar bem; ela só queria recuperar a fé que tinha no mundo, nas pessoas, em si mesma; ela só queria ser importante para alguém, assim como muitos foram para ela; ela só queria ser chamada pelo nome... Maria

Ela morre deitada em um chão empoeirado e sujo e com ela os sonhos que deixou de sonhar; a esperança de que algum dia sua vida mudasse; o sorriso que nunca mais deu ou recebeu. 

Ela morre sem deixar vestígios, ela morre sem que tenham tempo de percebê-la. Ela morre como sempre esteve. Sozinha.

7 comentários:

  1. Carol, apesar de muito triste, gostei do conto. Você deveria escrever mais. Montar uma compilação deles. Beijos

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  2. Fiquei alguns minutos procurando onde comentar, mas não desisti, pq merece ser comentado!! O conto é muito bom, e você escreve de um jeito divino. É triste, mas é tocante de um jeito que a gente se identifica. Não com o suicídio, mas quem nunca se sentiu sem amigos, sem sonhos ou sem esperança? Adorei! Sou relapsa para frequentar blogs, mas tentarei fazer mais visitas pq sei que vale a pena!
    Bjos

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  3. Que triste, Cah... =(

    Gostei, mas é triste! </3

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  4. Vc é simplesmente uma artista, já morri de te dizer isso...

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  5. A perdição começa quando a gente deixa de acreditar.

    Texto belo, texto triste.

    Beijos,

    http://algumasobservacoes.blogspot.com
    http://escritoshumanos.blogspot.com/

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  6. Bem Macabéia, mas muito você, nada Lispector. Parabéns, Cah, ficou maravilhoso!! Como sempre. =P

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