sábado, 22 de junho de 2013

[22/06/13]

You Wanted More by Tonic on Grooveshark

Ela estava cansada. Quando Maria virou-se na cama, deu de cara com mais um. Mais um cara que ela não sabia onde o encontrara. Provavelmente em um bar, onde passou a noite mais uma vez sozinha em companhia de uma garrafa de uísque envelhecido. Levantou-se da cama, cobrindo-se com o velho lençol desbotado, seus cabelos ruivos estavam completamente bagunçados, sua maquiagem estava borrada e seu estômago revirava-se como se houvesse um tornado instalado no meio do seu abdômen.

No banheiro, olhou-se no espelho e não se assustou com o que viu, pelo contrário, aquilo acontecia tantas vezes que já estava acostumada. Lavou-se e com dificuldade trocou de roupa. Àquela altura uma chuva torrencial caía lá fora, e ela não quis esperar. Saiu do prédio velho e fedido em direção a sua casa, não morava muito perto, mas mesmo assim preferiu fazer o percurso a pé, parecia uma boa hora para colocar as idéias em ordem.

Chegou em casa 20 minutos depois, seus cabelos, até então bagunçados, eram agora uma massa molhada que pesava sobre os seus ombros. Despiu-se e deitou-se na cama completamente nua, abriu a gaveta do criado-mudo, acendeu um cigarro, tragou profundamente. Fechou os olhos e ficou pensando naquele cara, aquele que tinha ficado deitado na cama do motel de quinta categoria onde estava.

Tragou mais uma vez. Estava cansada daquilo tudo. Estava cansada de sempre ser a mesma coisa, mais do mesmo. Estava cansada dos sentimentos frívolos, da volúpia... Estava cansada de ter apenas um pau entre suas pernas sem que aquilo significasse alguma coisa.

Ela queria mais, mais que aquilo. Lágrimas queimaram o seu rosto, enquanto a fumaça do cigarro queimava seu pulmão. Ela queria algo que nunca tinha sentido, queria sentir seu coração bater mais forte, queria ter orgasmos verdadeiros, queria ser acariciada, não como um pedaço de carne e sim, como mulher. Como a bela mulher que ela costumava ser.

Fechou os olhos e deixou que aquela letargia dominasse o seu corpo, membro por membro, órgão por órgão, sentido por sentido. Em seu mais belo sonho, ela tinha tudo: uma casa legal, um emprego legal, um cara legal, uma família legal e um cachorro legal, nunca se sentiu tão amada, tão desejava e tão feliz. Ela tinha, ela era tudo. Abriu os olhos novamente e fitou o teto, aquele mesmo velho teto.

Tomou um banho rápido, secou os cabelos, passou maquiagem, olhou-se no espelho e pensou que, talvez, aquela vida não fosse dela.

Calçou um salto, embaixo do braço aquela velha garrafa de uísque; no coração o sentimento que merecia mais do que aquilo; em sua razão a crença de que aquilo não era mais possível.

3 comentários:

  1. O.o Nossa Carol! Muito bonito! profundo. Embora expresse uma situação específica, retrata a carência que muitos de nós sentimos. Vivendo e revivendo a mesma rotina vazia por crer que não é possível querer mais.
    Parabéns! Muito bem escrito!!!!

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    1. Oi Luh!
      Muito obrigada pelo comentário, que bom que você gostou. Fico feliz quando você ou Carola gostam dos meus textos, vocês são minhas muses *.*

      Beijo

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  2. "membro por membro, órgão por órgão, sentido por sentido." Quem nunca?
    Como sempre, muito bem escrito, vc é mestra nas palavras.

    PS: Então meus comentários não servem? #sentida

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