quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Stop the beauty madness

Este post faz parte do especial do Rotaroots. :)

Nos últimos dias vimos um boom de fotos de mulheres sem maquiagem nas redes sociais, Facebook, Instagram são sempre as favoritas. Até então, eu não sabia o que aquilo se tratava, então resolvi pesquisar um pouco. 

O que é? 

O Stop the beauty madness é uma campanha criada pela escritora Robin Rice, que visa valorizar a verdadeira beleza feminina. A ideia de Rice é confrontar os padrões de beleza que o mundo moderno propõe para as mulheres, é também uma forma de fazer com que nós – mulheres – nos enxerguemos como realmente somos, não apenas com um monte de maquiagem no rosto. 

Como funciona? 

Você tira uma selfie sem maquiagem, posta em alguma rede social e desafia mais três pessoas, que têm que fazer a mesma coisa ou não. Como já falei, conheci o projeto através das várias fotos do facebook e instagram e não por que o desafio chegou a mim. 

Não sou a pessoa mais fã de maquiagem do mundo – apesar de ter adquirido um vício maluco por batons – desde pequena, eu via minhas amigas saírem sempre com o rosto completamente pintado, sombras, blush, base, corretivo, pó e, elas adoravam aquilo, eu nunca achei graça. 

Cresci e as pessoas viviam dizendo: “põe alguma coisa nesse rosto para mudar essa cara”, e eu me perguntava o motivo de ser obrigada a mudar a minha cara. Bom, sempre acreditei que se alguém fosse gostar de você, gostaria do jeito que é e não por que tinha maquiagem em seu rosto, assim também era com o meu cabelo. 

Quando eu tinha sete anos, sai com minha irmã até a casa da vizinha, lá, a vizinha que era cabeleira e amiga da família começou a mexer no meu cabelo, não sei exatamente o que ela estava fazendo, mas no final das contas, sai de lá com o cabelo liso e bonito. Desde então, nunca mais meu cabelo deixou de ser liso, até ano passado.

Como minha estima sempre foi muito ruim, eu descontava tudo nos meus fios crespos. Sempre os culpei pela minha falta de “sorte” com namoro e coisa e tal. Então, eu me enfiava em um salão de beleza e alisava de novo. Era um doloroso processo, meu couro cabeludo sempre fora muito sensível, então a cada sessão de relaxamento era uma verdadeira tortura, pois abriam feridas provocadas pela amônia, consequentemente, meu cabelo caia excessivamente.

Mas, eu não podia ficar sem por que as circunstâncias diziam que eu só seria bonita ou arranjaria um emprego ou um namorado se o meu cabelo fosse grande, liso e bonito. As circunstâncias diziam que o mundo só me notaria quando eu estava com meu cabelo arrumado, não importava muito as dores que eu sentia, isso não fazia a mínima diferença, pois o recado que eu sempre recebi foi: “ei, você, negra do cabelo ruim, dá um jeito nisso para ser aceita”. E eu dava, porque assim como todo mundo, sempre tive necessidade de ser aceita. Cheguei a um momento em minha vida que só me achava bonita se meu cabelo estivesse alisado e essa é a pior sensação do mundo.

O tempo foi passando e a minha visão foi mudando. Chegou um tempo em que eu só conseguia me aceitar se o meu cabelo estivesse alisado, eu odiava me olhar no espelho, odiava saber que aquilo que estava em cima da minha cabeça não ia ficar lindo nunca, odiava saber que eu nunca arranjaria um emprego decente, odiava toda aquela situação, eu me odiava.

Quase vinte anos depois daquele dia em que fui à casa da minha vizinha, veio uma vontade louca de parar com aquilo, e essa vontade só veio porque um dia, resolvi dar permanente afro e metade do meu cabelo foi embora com a água. Definitivamente, não queria mais aquilo. 

Ainda tinha a necessidade de ser aceita, mas aprendi que não é você que deve se moldar ao mundo, é o mundo que tem que se moldar a você. Eu nasci com meu cabelo crespo, considerado ruim por 90% das pessoas, inclusive os próprios negros, ruim, mas, aprendi que cabelo ruim é cabelo mal cuidado.

Em novembro do ano passado, cortei toda a química do cabelo e acreditem: recebi mais elogio do quando que alisava. Minha estima elevou-se de 0 a 80% - porque nem tudo são flores. Senti-me linda pela primeira vez na minha vida. 

Hoje, olho-me no espelho e vejo a pessoa que me tornei. Não sou mais escrava da beleza, nem da necessidade do meu cabelo liso, sou escrava sim, do meu bem estar, da minha felicidade e da minha estima. 

Se formos olhar bem a campanha “Stop the beauty madness” não é apenas sobre “olhe como você é bonita sem maquiagem”, é mais que isso é sobre “olhe como você é bonita com seu cabelo cacheado”, “olhe como você é bonita com os seus óculos” e principalmente: Ei, olhe como você é linda assim, do seu jeito! Afinal, quem faz o seu padrão de beleza é aquela pessoa que você vê todos os dias no espelho

Eu não fui desafiada a tirar foto sem maquiagem, mas fui desafiada ano passado, quando decidir aceitar meu cabelo do jeito que é. E desafio você, caro leitor, a desafiar a si mesmo e aceitar-se do jeito que é todo o momento do seu dia.

5 comentários:

  1. Muito legal poder relatos como o seu! A gente acaba se escravizando nas pequenas coisas e nem ao menos se dá conta. Durante muito tempo fui escrava da maquiagem... Não admitia ir à padaria sem lambuzar a cara rsrs... Atualmente vivo um pouco mais livre, dando um passo de cada vez e me aceitando como realmente sou, e o principal, me amando como realmente sou!

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    1. Oi Ana,
      Infelizmente essa escravidão existe e mesmo que a gente não queira, somos aprisionados nela, mas a partir do momento que nos aceitamos as coisas ficam mais fáceis e espero que sua liberdade dure muito tempo.
      Obrigada pelo doce comentário.
      Um beijo

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  2. Olá!
    Muito bom o seu relato. Eu ainda vivo escravizada pela progressiva, mas tenho um propósito de parar com ela brevemente e aceitar meus cachos.

    BJus

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  3. Realmente, a campanha é bem mais universal do que apenas "pare de usar maquiagem excessivamente", e mais "se aceite do jeito que você é, pois você é linda (o) desse jeitinho mesmo". Quero guardar todas as minhas opiniões sobre isso para meu post, mas já digo aqui que compartilho de muitos dos seus sentimentos, pois sempre fui muito complexada com minha aparência.

    Beijinhos,
    May :*
    {tagarelando.net}

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  4. Que texto incrível, Caroline. Amei demais. Acho que o desafio é exatamente isso: algo muito além de se aceitar sem maquiagem; e sim o ponto de SE ACEITAR. A cima de tudo.
    Beijos!

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